quarta-feira, 28 de maio de 2008

A moça da pasta preta

Pois é, ando sumida.
É porque agora assumi minha identidade secreta pelas ruas: sou a-moça-da-pasta-preta.
Aonde quer que eu vá, lá está ela, calada, pesadinha e negra, minha amiga e retangular A3.

Em muitos anos de aventuras, já acharam que eu era espiã (com uma pasta daquele tamanho, pasmem), que era musicista francesa do Teatro Municipal (tocando o que, meu Deus?) e que eu era esnobe, por levar objeto tão grande assim, juntinho a mim. Sempre correndo, voando. Da Avenida Paulista ao fundão da Lapa, de Guarulhos ao Brooklin.

Uma das poucas vezes que a levei de carro, tive o maior azar do mundo: no estacionamento que eu havia deixado, deram a chave para outro carro parecido (que foi embora) e a minha pasta ficou presa. Tadinha... quase morreu asfixiada.

Já escondi essa pasta em lugares diversos: em padarias, bares, botecos, farmácias, bancas de jornal. Colegas levaram pra longe. Aonde tinha um amigo, tinha uma oportunidade.

Uma vez, estava voltando de uma missão secreta, indo para a faculdade e o ônibus quebrou, na Via Dutra. Eu quase morri, mas não deixei que a chuva que se aproximava tocasse a minha querida menina de couro negro.

Hoje, lá estava eu indo para um lugar diferente. Eu e ela. Estávamos sentadas há algum tempo quando um Cinzeiro ambulante de cabelo branco amarelado sentou ao nosso lado... Meu Deus, eu ia chegar no meu compromisso cheirando à Keith Richard, depois de ter me perfumado de Dior e ter me apurado como nunca. Puxa, tentei ficar perto da janela, para aquele cheiro nem pegar em mim nem na A3. Ledo engano. Lá fora, a fumaça fez um "blend" com a poeira do chão. Um primor.

Mas fomos... eu e a pasta. Fizemos nosso trabalho, bonito. Ela não me deixa na mão, é um orgulho ter uma amiga tão fiel. Muitas pessoas gostam de carregá-la. E ela não gosta que eu uso salto alto, sabe? Ela fica mais pesada, só de raiva.

A-moça-da-pasta-preta já passou por escritórios chiques até o osso, por fábricas, por muitas agências, por editoras e por espeluncas que eu teria medo de citar. Mas a A3 sempre lá: quieta, faceira... Coisa linda.

Obrigada, Portifa. Você é a minha vida (profissional).

2 comentários:

Blogge Gaspa disse...

Como pode ? objetos pessoais. Ganham vida própria tornam-se essenciais...

Aguardando por seu livro de cronicas

Jakeline disse...

Grande A3, hein? Vai longe ela ainda! =D